Saúde de A a Z: Sono e os desafios para dormir como um anjo

Postado por FAMESP em 22/03/2021 em NOTÍCIAS | Comentários desativados

Se você já não dorme como um anjo, acorda cansado e sente que a qualidade do sono está afetada, é hora de pensar em procurar um especialista da área. Da insônia às desordens respiratórias relacionadas ao sono, os problemas que afetam o ato de dormir e a qualidade do sono atingem cada vez mais pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a insônia, por exemplo, já atinge 45% da população mundial.

Conversamos com o médico otorrinolaringologista Sergio Kiemle Trindade, especialista com pós-doutorado em Medicina do Sono pela Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB/UNESP, 2015) e atuante em unidades de saúde sob gestão da Famesp, para entender quais são os principais distúrbios e como se livrar deles. Você também pode ouvir os áudios do especialista. Confira!


Quais são os principais distúrbios do sono e suas causas?

Sergio Kiemle Trindade
- Dentre os distúrbios do sono eu destaco, primeiramente, a insônia, que pode ser tanto caracterizada por dificuldade em iniciar o sono, ou seja, a pessoa deita e tem dificuldade de dormir, quanto uma dificuldade em manter o sono ou o que a gente chama de despertar precoce: acorda cedo e não consegue dormir mais.

Um outro grupo de doenças do sono que são muito frequentes e muito prevalentes na população de modo geral são as desordens respiratórias relacionadas ao sono. E, dentre elas gostaria de destacar a síndrome da apneia obstrutiva do sono. A síndrome da apneia obstrutiva do sono é caracteriza pelo quê? É aquela pessoa que geralmente ronca, caracteristicamente tem um ronco intenso e, além de roncar, ela faz pequenas pausas na respiração. Ou seja, a faringe, a garganta dessa pessoa não consegue se manter aberta, permeável durante o sono. Durante o sono, nossa musculatura fica bastante flácida tanto que quando a gente começa a dormir uma das primeiras coisas que a pessoa não consegue é nem manter o tônus da cabeça. Então, começa a pescar, né, como a gente gosta de brincar com as pessoas. Então, essa ipotonia da musculatura em algumas pessoas que tem a síndrome da apneia obstrutiva do sono ela acaba exacerbando essa ipotonia da musculatura da faringe e ela acaba tendo esse transtorno respiratório do sono.

Existem outros transtornos do sono que são menos frequentes. A gente tem as desordens de hipersonolência; alterações do ritmo circadiano, ou seja, aquele indivíduo que não se encaixa no ritmo de vida de 24 horas; existem as parassonias, dentre elas os despertares confusionais, terror noturno, sonambulismo, que causam bastante curiosidade nas pessoas, mas são bem menos frequentes do que a insônia e as desordens respiratórios do sono.

Então, esses são os principais transtornos do sono que afetam as pessoas de uma forma geral.

A insônia, como principal causa, existem “n” causas para a insônia, mas uma delas é o estado de hiperalerta, um estado de hipervigília. Hoje em dia as pessoas estão hiperconectadas, sobrecarregadas do ponto de vista do trabalho, de responsabilidades, e a pandemia também, da Covid-19, nesse sentido, trouxe uma ameaça real para a vida das pessoas. Então, nesta época de pandemia, as insônias agudas e os transtornos de insônia se consolidaram.

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Esses distúrbios podem ser consequências de outras doenças, como depressão e ansiedade, por exemplo?

Sergio Kiemle Trindade
- Sim. Uma coisa piora a outra. Então, em pacientes que apresentam transtornos depressivos ou transtornos de ansiedade generalizada, uma das primeiras coisas que aparecem, uma das primeiras manifestações clínicas de um paciente com depressão ou com transtorno de ansiedade, é em relação à quantidade de sono. Ou o indivíduo vai ter uma insônia, uma dificuldade de iniciar ou manter o sono, ou ele vai ter um quadro de hipersonolência. Então, é algo que a gente deva ficar bastante atento. O indivíduo que começa com sintomas de ansiedade, com sintomas depressivos, e que apresente uma alteração na sua qualidade de sono é algo que deva chamar a atenção das equipes de saúde e também da família desse paciente.
Por outro lado, o indivíduo que dorme mal, que cronicamente é privado de sono, ou seja, ele dorme menos do que deveria ou ele já apresenta um transtorno de sono (uma insônia instalada, um transtorno de insônia ou uma síndrome da apneia obstrutiva do sono) ele também é mais suscetível a desenvolvimento de depressão e ansiedade. Então, uma coisa puxa a outra. Existe uma relação bilateral entre essas entidades clínicas.

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O que define exatamente a INSÔNIA? Quando procurar um especialista por isso?

Sergio Kiemle Trindade
- Existem múltiplas classificações para insônia. Mas de uma forma simplicada, o transtorno da insônia é caracterizado por aquela pessoa que apresenta dificuldade ou para manter o sono ou para iniciar o sono ou aquela pessoa que acorda muito cedo. E isso acontece mais que três vezes por semana por mais de três meses seguidos e isso causa sofrimento, desconforto para o paciente... Então, se o paciente apresenta esses sintomas e isso causa sofrimento ele deve procurar auxílio médico. As especialidades que atuam dentro da área de medicina do sono, que é uma área de atuação da Medicina, nós temos a Otorrino, a Neurologia, a Psiquiatria, Pneumologia, dentro das áreas médicas, e temos também os especialistas da área da saúde, psicólogos, terapeutas... De forma geral, o tratamento da insônia é multidisciplinar. Então, se você apresenta um distúrbio de insônia, uma dificuldade de manter ou iniciar o sono, procure o seu médico, um médico com área de atuação em Medicina do Sono, que ele poderá ajudá-lo nessa dificuldade.

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O uso desenfreado de smartphones e o hábito de “colar” os olhos nessas telas planas interferem no processo de iniciar ou manter o sono?

Sergio Kiemle Trindade
- A resposta é sim. O que a gente vê é que atualmente nós estamos hiperconectados. Então todo mundo checa seu e-mail, suas redes sociais, seu whatsApp, antes de dormir. Isso tem um efeito bastante na qualidade do nosso sono. E por quê? Do ponto de vista fisiológico, quando a nós estamos expostos a uma quantidade de luz muito grande, principalmente a luz que provém desses smartphone, é uma luz de espectro branco, ela ativa células específicas na nossa retina. Essas células da retina têm conexões com uma glândula que a gente chama de glândula pineal. Quando eu tô exposto a muita luminosidade, existe a inibição da secreção de um hormônio que é produzido pela glândula pineal, que é a melatonina. A melatonina é um sinalizador endógeno. Ou seja, é um hormônio que nós produzimos e que ele sinaliza para o corpo que tá na hora de dormir. A secreção da melatonina tem um ritmo, que a gente chama de ritmo circadiano. De manhã ela tem uma concentração baixa e ao longo da noite, principalmente nas primeiras horas da madrugada, ela atinge uma concentração máxima. E essa secreção ao longo do dia normal ela é importante para que o nosso corpo saiba a hora que é pra estar acordado e a hora que é para estar dormindo. Quando eu fico muito exposto a uma luminosidade muito intensa e principalmente ao uso de telas de computador, smarthphones e tablet, existe um atraso, uma diminuição da concentração de melatonina ao longo da noite. Isso cursa, ao longo do tempo, com menos tempo de sono, com aumento do tempo de latência do sono, ou seja, o tempo que eu deito e que efetivamente estou dormindo. Isso não acontece só aos adultos. Isso já acontece na primeira infância e nos adolescentes. Então, além dos adultos que estão trabalhando e tudo mais, a gente tem que ficar atento às crianças e aos adolescentes que são especialmente sujeitos a esse tipo de problema.

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O que é apneia obstrutiva do sono? Como tratar?

Sergio Kiemle Trindade
- Uma patologia muito frequente dentro dos distúrbios do sono são os distúrbios respiratórios do sono e, dentre eles, se destaca o que a gente chama de síndrome da apneia obstrutiva do sono. Então, resumidamente, o que é a síndrome da apneia obstrutiva do sono? É um indivíduo que ronca, é um indivíduo que tem um ronco intenso, um ronco que geralmente é um motivador à procura de um especialista na área; além do ronco, esse indivíduo apresenta pausas na respiração. Por que? Existem várias causas, vários fatores que desencadeiam a apneia obstrutiva do sono, mas uma forma mais simples da gente entender é aquele indivíduo que tem uma via aérea estreita. Ou seja, desde o nariz até a laringe, que é a via aérea superior desse paciente, ela é mais flácida e mais sujeita a se fechar enquanto o indivíduo dorme. Fisiologicamente, o que acontece durante o sono? Uma das características do sono é que o tônus da nossa musculatura diminui muito. Principalmente numa fase mais profunda que a gente chama de sono REM. Se eu lembrar que a minha garganta, que a faringe é composta por músculos e que a língua também é composta por músculo, quando eu durmo, em pessoas anatomicamente, fisiologicamente, suscetíveis, essa garganta pode se fechar quando eu puxo o ar e faço um esforço respiratório. Dependendo do número de vezes que essas apneias acontecem ao longo da noite eu classifico a apneia em leve, moderada ou acentuada ou grave. Porque a gente classifica dessa forma? Porque a gente sabe que indivíduos que tem uma apneia mais intensa, ou seja, que faz muitas pausas na respiração durante o sono e que, paralelamente, eles apresentam uma queda importante da oxigenação do sangue isso está associado com aumento da chance de problemas cardiovasculares lá no futuro. Então, aumento da chance de infarto, aumento da chance de derrame - dos acidentes vasculares e encefálicos. Então é muito importante a gente identificar esse tipo de problema. O indivíduo que tem ronco intenso; pausas recorrentes na respiração presenciadas pelo familiar; que apresenta uma sonolência diurna excessiva, ou seja, uma sensação crônica de sono não reparador, uma fadiga crônica, deve ser encaminhado para um médico com área de atuação em Medicina do Sono para um diagnóstico correto.

Como tratar?

Temos 4 grandes grupos de modalidades de tratamento.
A primeira delas é o tratamento que a gente chama de comportamental ou medidas de higiene? do sono.
- Uma das coisas importantes é orientar o paciente a sempre fazer um controle do seu peso. Existe uma associação muito grande da obesidade com a apneia, existe essa característica multidisciplinar no tratamento da apneia; - que a pessoa durma de lado. Geralmente dormir de lado diminui o ronco e a apneia. Para casos mais graves às vezes não é verdade, mas para casos mais leves e iniciais isso pode ajudar.

O segundo grupo de tratamento são os tratamentos cirúrgicos. Cirurgias na faringe, ou seja, na garganta, cirurgias nasais e cirurgias sobre o esqueleto da face. Existem indicações precisas. A cirurgia é para todo mundo? Não. Você tem que ter uma boa indicação e parâmetros clínicos que nos façam pensar que a cirurgia seja uma boa alternativa. Isso só o médico pode definir.

Terceira modalidade de tratamento: a gente tem um dispositivo que a gente chama de CPAP. Um dispositivo que gera uma pressão contínua positiva na via aérea superior do paciente. Como age? É uma máscara que acopla no nariz ou no nariz e na boca. Existe um tubo que conecta o dispositivo, que é um soprador. Ou seja: ele puxa o ar do meio ambiente, ele pressuriza o ar ambiente, é o ar com as concentrações de gases habituais que nós respiramos e joga sob pressão esse ar no nariz e na garganta do paciente. Então, no momento que ele vai puxar o ar para respirar e que a garganta iria fechar, acontece o contrário. Existe o ar que entra sob pressão e isso faz com que o indivíduo respire de uma forma adequada. É uma terapia bastante eficaz, ela previne as complicações futuras da síndrome da apneia obstrutiva do sono. Mas ela deve ser bem indicada para que o paciente tenha sucesso e consiga usar esse tipo de dispositivo.

Outra modalidade de tratamento são os aparelhos intraorais, que os cirurgiões-dentistas confeccionam. Existem diferentes modelos. Mas de uma forma simplificada o que fazem esses dispositivos? São placas de acrílico que se conectam na maxila e na mandíbula e jogam a mandíbula pra frente. Quando eu anteriorizo a mandíbula eu ativo toda a musculatura que fica no assoalho na boca e isso faz com que a garganta fique mais permeável. São terapias eficazes, principalmente para quadros leves e moderados. Mas tem indicações precisas, então precisa de uma avaliação global para que isso seja indicado.

E, por fim, existe a modalidade de tratamento fonoaudiológico. Existem terapias funcionais que fortalecem esses músculos da faringe, da garganta, e que ajudam o indivíduo a respirar como um todo.

É importante frisar que a correta indicação do tratamento depende de uma boa avaliação clínica. Então, o médico do sono é capaz de realizar um diagnóstico preciso e fazer uma indicação terapêutica, que às vezes é multidisciplinar e às vezes é baseada numa terapia única. Isso que é bastante importante a gente ter uma avaliação precisa e uma avaliação em grupo, uma avaliação multidisciplinar.

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Quando o “ronco” deve ser preocupante a ponto de procurar um especialista?

Quando o ronco é:
- intenso
- frequente (todos os dias)
- quando nota-se pausa na respiração, como se afogasse e brigasse durante a noite para respirar.
Confira resposta completa do especialista ??

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(Produção da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Famesp)

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Atenção: Essas orientações não substituem uma consulta com profissional da saúde. Se você apresenta algum dos sintomas aqui descritos, procure o seu médico e informe-se sobre os cuidados necessários.