Hospital de Base opera paciente mais velho da sua história

Postado por FAMESP em 08/07/2016 em NOTÍCIAS | Comentários desativados

Discreto e desconfiado, Aguinelo chega aos 128 anos com saúde geral surpreendente.

Em 1998, quando foi criado o site de busca mais famoso em todo o mundo (Google), onde hoje digitei a palavra “longevidade”, Aguinelo já tinha 110 anos e já estava, seguramente, entre os homens mais velhos do mundo.

Longe da Internet, longe da vida estressada dos jovens dos acelerados anos dois mil e tralalá, que desafiam a Ciência em busca da tal longevidade – e até da imortalidade, por que não? –, o supercentenário vive sem pressa num tradicional asilo na cidade de Bauru, desde meados dos anos 70. Mas não nasceu no estado de São Paulo. Segundo relatos, ele teria nascido num Quilombo, no interior do Ceará, no ano da abolição da escravatura (1888) – antes mesmo de Bauru ser fundada (em 1896).

E foi num hospital localizado em Bauru, o Hospital de Base (HBB, unidade sob gestão da Famesp), que Aguinelo teve sua primeira experiência em sala cirúrgica, depois de fraturar um fêmur, em vésperas de completar 128 anos. Quem nos conta um pouco da história desse longevo é a jornalista Natália Sforcin, da equipe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Famesp. Acompanhe:

No último dia 24 de junho, a equipe do Hospital de Base de Bauru (HBB) – unidade sob gestão da Famesp – ficou surpresa ao receber para internação o senhor José Aguinelo Santos, de 128 anos. É exatamente esta a idade: 128 anos. Possivelmente um dos homens mais velhos do Brasil e até do mundo. Segundo reportagem publicada pela BBC Brasil, em janeiro, atualmente, em todo o mundo deve haver cerca de 800 pessoas com mais de 110 anos. “Metade dos idosos a atingir essa marca morre ainda aos 110 anos – e 98% antes de completar 115 anos”, afirma Robert D. Young, diretor do centro americano Gerontology Research Group (Grupo de Pesquisas de Gerontologia, em tradução literal, e GRG, na sigla em inglês), responsável pela área de pesquisa de "supercentenários". Sem dúvida, Aguinelo já bateu esses recordes. E vive em seu silêncio sereno sem aparentar nenhuma pressa para o dia seguinte.

Ele só foi parar numa unidade hospitalar recentemente, após ter tido uma queda da própria altura e ser encaminhado ao HBB para avaliação. De acordo com a consulta do especialista, o caso era cirúrgico, o que deixou a equipe bem ansiosa.

“Nossa maior preocupação era com o estado geral de saúde dele e como seria o pós-cirúrgico. Não sabíamos se o osso dele iria suportar a colocação dos parafusos. Surpreendentemente, o resultado foi bem satisfatório. Deu tudo certo, felizmente!”, afirma o cirurgião ortopedista Sérgio Eiti Carbone de Paula, que há três anos compõe a equipe da Ortopedia do Hospital de Base de Bauru e destaca nunca ter atendido alguém com idade tão avançada. “O estado geral de saúde dele é semelhante ao de um idoso de 70 anos”, completa o ortopedista.

Aguinelo foi para o centro cirúrgico no dia 28 de junho, dez dias antes de completar seus 128 anos. “Passados 40 minutos de cirurgia e com um corte de aproximadamente sete centímetros entre a bacia e o fêmur, ele foi para a sala de recuperação e acordou bem”, afirma o enfermeiro Leandro Perri, funcionário do asilo Vila Vicentina – local onde Aguinelo reside desde 1973. Foi Leandro quem acompanhou todo o processo cirúrgico do idoso, desde a internação até a alta. “Foi a primeira vez que ele teve uma fratura, desde quando está na Vila Vicentina. Ele precisava de alguém de referência e confiança para acompanha-lo. Do contrário, ele se sentiria desambientado e isso iria influenciar no tratamento”, completa Leandro.

“Na avaliação pós-cirúrgica, ele manteve todos os parâmetros normais, como pressão arterial e respiração”, pontua o médico Sérgio. “Nós não precisamos de nada especial para a cirurgia dele, a única coisa que fizemos de diferente foi realizar a cirurgia com um pouco mais de agilidade e sem o uso de muitas medicações”, completa o médico. “Realmente é um caso surpreendente, tanto pela idade que ele tem quanto pelo sucesso da cirurgia. Dizem que o segredo da longevidade dele é o fato de ter se mantido solteiro por toda a vida”, brinca o ortopedista.

Um símbolo de resistência

Na manhã do dia 7 de julho eu recebi uma ligação da minha colega de trabalho (e amiga) me contando a história da cirurgia realizada no Hospital de Base no homem que pode ser o mais velho do mundo. O pedido feito no telefonema era para eu ir até o asilo onde o homem - mais que centenário - reside e tentar conversar um pouco com ele para saber mais da história. E havia algo de especial na data: era o dia do aniversário de 128 anos do seo Aguinelo. Me arrumei, peguei uma caneta, um caderno e fui. Chegando lá, fui muito bem recebida por um dos dirigentes do local. Ele me levou até a psicóloga e disse que era ela quem iria me acompanhar. Pelo caminho fui observando todos os detalhes daquele lugar: quantas histórias estavam guardadas ali? Fui planejando perguntas que gostaria de fazer ao Zé:

- Como era, para ele, ter nascido no ano da abolição dos escravos, numa época de transformações, período em que não existia nem energia elétrica e rodovias, e ter acompanhado o processo de toda evolução tecnológica, de propagação de informação na velocidade da luz? Eu mesma conheci a história do José pela internet. Será que ele imaginava viver nessa época de hoje?

Eu estava ansiosa... Cheguei à sala da psicóloga. Uma mocinha ruiva e de olhar doce me recebeu de braços abertos. “Olá, eu sou a Mariana, psicóloga aqui do asilo”. Eu também me apresentei e contei a ela qual era meu objetivo. “Vamos lá?”, ela me convidou. Na hora me bateu uma onda de ansiedade. Eu iria ficar frente a frente ao homem que pode ser o mais velho do mundo. Fomos conversando pelo caminho e encontrando vários moradores do asilo. Eu me encantei com cada fragmento de história que ouvi por ali. Eis que eu cheguei ao lugar onde ele estava...

O dia estava lindo, o sol batia forte na pele brilhante do Aguinelo. Ele estava sentando em uma poltrona com um boné cobrindo um pouco seu rosto. Me abaixei diante dele e fiquei por alguns segundos só admirando. A psicóloga, bem mais familiarizada do que eu, se aconchegou perto do ouvido dele e falou quem eu era e por que eu estava ali. Ele não disse nenhuma palavra, mas olhou rapidamente pra mim. Eu lhe desejei feliz aniversário e continuei em silêncio. A Mariana me falou que o Zé é mais reservado e que por conta da cirurgia ele estava mais quieto nos últimos dias. Eu compreendi tudo e pedi para fazer uma foto. Me ajeitei para fazer o retrato e reparei que ele não tinha rugas. Que coisa mais impressionante, pensei comigo mesma. Não quis mais incomodar o seo Aguinelo e, então, me despedi e o deixei no seu canto aproveitando o calor do sol. A experiência me fez refletir sobre o símbolo de resistência que esse homem representa: ele é negro, nasceu no ano da abolição da escravatura (1888), fez 128 anos e realizou com sucesso uma cirurgia numa idade tão avançada...

Perguntei para a Mariana:

- E a festa de aniversário para comemorar todos esses anos de vida? Não vai ter? Ela me explicou que ao final de todo mês eles realizam uma festa de aniversário para todos os moradores aniversariantes.

Saí do asilo e fui ao encontro do médico que operou o Zé. Eu estava curiosa, queria saber da parte médica se havia alguma coisa que eles atribuíam para uma pessoa ter tanta saúde e resistência desse jeito. Nos primeiros minutos de conversa o médico brincou comigo: “Dizem que ele só teve umas namoradas, mas nunca se casou. Deve ser por isso que está vivendo tanto, não teve tantas dores de cabeça”.

Ele falou isso e eu me lembrei de uma senhora que conheci em 2011, época em que eu estava cursando Jornalismo. Eu e meu grupo de trabalho tínhamos que produzir um documentário. E o tema escolhido por nós foi a história da dona Assumpta Tortorella, que na época tinha 108 anos. Ela era a pessoa mais velha que eu já tinha conhecido até então. E durante nossas conversas com ela, surgiu uma informação em comum com a do seo Zé: ela também não tinha se casado e nem teve filhos. Será que é mesmo esse o segredo da vida longa?

Brincadeiras à parte, até hoje, Ciência nenhuma descobriu a fórmula exata da longevidade. De certo mesmo, ficam os exemplos inspiradores da vida do Zé.

(Natália Sforcin, Assessoria de Comunicação e Imprensa da Famesp)